Abruzzese declarou que o Brasil tem exportado a preços melhores mas, especialmente para a Argentina, a Colômbia, o México e a China, o que pode causar risco pois esses países vendem para os EUA, portanto o Brasil acaba por sofrer as conseqüências. O impacto, entretanto, não será tão severo, uma vez que a economia brasileira está mais diversificada.
JURO ALTO AMEAÇA CRESCIMENTO, DIZ ANALISTA
Data: 20/04/2008
Veículo: FOLHA DE S. PAULO - SP
Editoria: DINHEIRO
Assunto principal:
ASSUNTOS AFINS
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL
Embora o Banco Central esteja correto em agir para evitar que a inflação fuja do controle, é preciso cuidado com o tamanho do aumento da taxa de juros para não matar o ciclo de crescimento no qual o Brasil ingressou nos últimos anos. Essa é a opinião de Leo Abruzzese, diretor editorial para as Américas da consultoria Economist Intelligence Unit, braço de pesquisas do grupo que publica a revista britânica "The Economist". Leia, a seguir, trechos de entrevista de Abruzzese à Folha.
FOLHA - Genericamente, define-se o início de uma recessão como dois trimestres consecutivos de retração do PIB, o que ainda não aconteceu com os EUA. Mesmo assim, o senhor afirma que a recessão já se instalou por lá. Quais são os sinais que o convencem disso?
LEO ABRUZZESE - A recessão está a caminho há alguns meses. Começou com a inadimplência no setor imobiliário e piorou quando os problemas atingiram os consumidores. Nos EUA, os gastos respondem por 70% da atividade. Com a queda nos preços das casas, eles ficaram com menos dinheiro disponível para comprar. Agora, a crise chegou ao mercado de trabalho, o indicador mais importante da retração. A recessão deve durar até o final de 2008 ou o começo do ano que vem.
FOLHA - Quais serão as conseqüências disso para o Brasil?
ABRUZZESE - Provavelmente, não serão tão severas como seriam há dez anos. A ligação entre os EUA e os países emergentes se enfraqueceu porque o crescimento dos últimos está mais apoiado no mercado interno que nas exportações. As vendas externas também ajudam a explicar o crescimento de mais de 5% do Brasil em 2007. Grande produtor de commodities, cujos preços subiram bastante, o país está vendendo muito para a Ásia. Neste ano, o crescimento deve se desacelerar para cerca de 4,6% justamente porque o mercado para exportação não estará tão bom. O país sentirá os efeitos, mas não será um golpe duro.
FOLHA - A percepção de que as conseqüências podem não ser tão graves desta vez tem feito uma parte dos empresários brasileiros adotar um otimismo exacerbado, acreditando que a diminuição das vendas para os EUA pode ser facilmente compensada com o comércio com outros países latino-americanos. Essa visão é correta?
ABRUZZESE - Por essa concepção, assume-se que o Brasil e outros países se descolaram dos EUA. Há um pouco de verdade nisso. É possível que o Brasil venda mais para Argentina, Colômbia e México no lugar dos EUA. Só que o Brasil também exporta muito para a China, que se desacelerará devido à retração nos EUA, já que também vende bastante para os americanos. É perigoso e errado dizer que a recessão americana não terá impacto nenhum ou que ele será mínimo, porque afeta outras nações que se relacionam com o Brasil. Terá impacto, mas em menor grau, pois a balança comercial brasileira está mais diversificada.
FOLHA - Alguns especialistas têm afirmado que, mais do que os riscos de uma recessão nos Estados Unidos, a inflação pode ser um grande problema para os emergentes. Quais são os riscos para o Brasil?
ABRUZZESE - A elevada taxa de juros por muito tempo impediu que a economia crescesse. Agora, o Banco Central voltou a elevar a Selic porque não quer deixar a inflação subir -essa é a sua responsabilidade. Por saber que as pessoas ficam mais nervosas em relação ao país quando há alguma ameaça de alta de preços, já que o Brasil tem um histórico de hiperinflação, o BC sobe os juros para mandar a mensagem de que está atento à situação. No entanto, dessa maneira, pode ser interrompido o ciclo de avanço no qual o país se encontra. A inflação que vemos é provocada pela disparada dos preços das commodities devido ao crescimento da demanda dos países asiáticos. Se a economia mundial se desacelerar com a recessão nos Estados Unidos, a China vai junto e a Índia também, o que faria arrefecer as pressões inflacionárias.
FOLHA - Então, a demanda interna não preocupa como fonte de pressão inflacionária?
ABRUZZESE - Como a política monetária demora um pouco para fazer efeito, os cortes de juros realizados no ano passado ainda serão sentidos, sobre a demanda, até o final do segundo trimestre. Pode haver ainda alguma pressão. Porém, não faz sentido imaginar que a inflação subirá muito se a economia no Brasil e no resto do mundo estiver em desaceleração.
FOLHA - O mercado financeiro espera que a Selic chegue ao final de 2008 até 1,5 ponto percentual acima do nível em que está hoje. O senhor acha que se justifica uma elevação desse tamanho?
ABRUZZESE - O BC brasileiro está sendo bastante conservador, o que é bom, tem de ser mesmo. Mas 1,5 ponto adicional é muito, é demais. A autoridade monetária sabe que a economia mundial vai se desacelerar. O BC tem de olhar para a frente, e não para trás. Um aumento de 1,5 ponto teria o efeito de desaquecer a economia muito acima do desejado.
FOLHA - Na trajetória de estabilização de longo prazo, ajustes como esse são esperados?
ABRUZZESE - Claro. O Brasil está definitivamente na direção certa. Entretanto, se quer algum dia crescer em um ritmo forte, o caminho tem de ser baixar os juros. Se a taxa ficar na casa dos 14%, o país nunca vai realizar todo o seu potencial.